Queda do dólar é parte de 'ciclo perigoso', mas pode trazer benefícios ao Brasil, dizem economistas


A recente desvalorização do dólar frente ao real tem gerado uma série de efeitos sobre a economia brasileira. Para explicar o fenômeno e suas consequências, a Sputnik Brasil ouviu economistas que apontaram os pontos positivos e negativos dessa mudança em meio à alta dos juros, da inflação e do desemprego.


Ao longo de 2022, o dólar se desvalorizou cerca de 14,5% frente ao real. Nesta terça-feira (29), a moeda norte-americana fechou o dia sendo negociada a R$ 4,75. A queda acentuada — que levou ao menor valor em cerca de dois anos — chama a atenção e levanta questionamentos.

O economista João Branco, professor da ESPM, descreve dois motivos para a valorização do real em relação ao dólar. Para o especialista, o primeiro é o aumento da taxa básica de juros no Brasil. Ao longo dos últimos 12 meses, a Selic saltou de 2% para 11,75% ao ano, como mostram os dados do Banco Central.


Segundo a mais recente ata publicada pelo Comitê de Política Monetária do BC (Copom), o aumento dessa taxa estaria atrelado a uma tentativa de conter a inflação, que gira em torno de 10,5% no acumulado de um ano segundo o painel do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"As taxas de juros reais que o Brasil está pagando são superiores às dos outros países, o que torna o nosso mercado mais competitivo para o capital financeiro internacional vir aqui realizar seus ganhos. Isso faz com que haja uma entrada maior de dólares no Brasil, e isso acaba forçando o preço dessa mercadoria chamada dólar", afirma Branco à Sputnik Brasil, explicando que a abundância de dólares no país tende a desvalorizar a moeda frente ao real.

Já o segundo motivo para o fenômeno seria o aumento da demanda por commodities como petróleo e soja no mercado internacional. Apenas o barril Brent de petróleo acumula alta de 40% no ano, conforme publicou o portal G1. Segundo afirma o economista da ESPM, isso também leva ao crescimento da entrada de dólares no Brasil.

"Ocorre que Ucrânia e Rússia, que se envolveram em um conflito, são concorrentes nossos no mercado de commodities, respectivamente no agronegócio e no petróleo. Com esses dois 'players' fora temporariamente do mercado, a tendência é que nos tornemos um competidor mais assediado", explica.

O economista Istvan Krasznar, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), amplia essa avaliação ao apontar que a instabilidade global gerada pelo embate entre Rússia e Ucrânia se manifesta de forma negativa principalmente em países que se sentem ameaçados — o que não é o caso do Brasil.

"Nessa hora, não apenas o rublo, que é a moeda russa, perde valor, mas também outras moedas, vinculadas a países que podem se instalar perante a guerra, perdem posição e se fragilizam, porque todo mundo tem medo do aumento do gasto público em armamentos [...]. É o caso dos EUA e dos membros da OTAN", avalia Krasznar em entrevista à Sputnik Brasil.

'Movimento de gangorra' abre ciclo perigoso, diz economista

João Branco avalia que a desvalorização do dólar prejudica a exportação dos produtos brasileiros, que perdem competitividade, mas que isso é parte de um movimento de "gangorra" ligado ao fluxo das moedas.

"É sempre assim: você desvaloriza sua moeda, e as exportações aumentam; se as exportações aumentam, entra mais moeda estrangeira. E entrando mais moeda estrangeira, valoriza a sua moeda, e valorizando sua moeda, esse ciclo se encerra com o desestímulo às exportações", explica.

Branco também aponta que a desvalorização do dólar tende a reduzir os custos de produção e, por consequência, os preços e a inflação no Brasil. É o que indica o também economista Gabriel Quintanilha, professor da FGV. "O impacto disso para o Brasil é que os bens, os insumos adquiridos em dólar, como é o caso do próprio combustível, que sofre a influência da cotação em dólar, assim como insumos industriais, vão ter um preço menor, podendo equilibrar a inflação", afirma Quintanilha à Sputnik Brasil. O economista acredita que a desvalorização do dólar pode ter efeitos benéficos sobre a economia brasileira, apesar dos temores. "A indústria de base, com peças de reposição cotadas em dólar, acaba tendo um resultado mais favorável, havendo um equilíbrio da nossa balança comercial. De forma geral a queda do dólar não é tão ruim para a economia quanto parece. Pelo contrário, pode trazer benefício, principalmente no controle da inflação", acredita o professor da FGV. Por outro lado, a alta taxa básica de juros, que induz à entrada do dólar, desestimula o consumo e a atividade econômica, segundo o economista João Branco, da ESPM.

"É um ciclo perigoso, que combina taxa de inflação alta e baixo crescimento econômico, o que é genericamente conhecido como estagflação", conclui.

Fonte: Sputniknews